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JULGAMENTO LEVANTA POLÊMICA NO TOUR

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Por: Dadá Souza

Hurley Pro, Lower Trestles, California. Um evento super esperado por todos aqueles que gostam de ondas de alta performance e de manobras progressivas. O circo armado, as ondas estavam lá deixando meio mundo babando de vontade de surfar as deliciosas ondas de Lower Trestles… mas o surfe progressivo pouco deu as caras. Mais do que isso, o evento entrou em sua reta final com os juízes chamando mais atenção do que os competidores.

Já não é de hoje que os tradicionais juízes do circuito mundial demostram que gostam de ver um surfe de borda nesse evento de Trestles. Em outros anos foi igual. A questão aqui não é que o surf de borda é antiquado, de maneira nenhuma, o Mick Fanning está aí para provar o quão lindo e eficiente pode ser um surfe de borda. O problema é que muita gente parece não estar concordando com o julgamento. Matt Wilkinson e Gabriel Medina, dois dos três primeiros colocados no ranking, foram nitidamente prejudicados pelo julgamento e deixaram o evento nada feliz3s.

A impressão que eu tenho, é que alguns critérios de julgamento são flutuantes e vem desagradando a competidores, jornalistas e público. Nessa bateria Medina x Tanner o barulho nas redes sociais foi imenso e muitas gente questionou a credibilidade da WSL e a competência de seus juízes.

No grupo Mesa Surfocrática, no Facebook, foi comentado pelo Ricardinho Toledo que uma reunião em San Clemente havia definido que as manobras inovadoras não seriam mais valorizadas do outras manobras (como acontece com os tubos em Teahupoo ou Pipe, por exemplo). O ponto aqui não é que as manobras aéreas devem ser mais valorizadas do que manobras de borda, isso seria uma tolice, mas que manobras com altíssimo grau de dificuldade devem valer mais pontos do que manobras realizadas em uma zona de conforto. Então me parece que os juízes de certa forma não estão acompanhando a evolução do esporte e/ou não estão sabendo julgar o que é mais ou menos difícil. Olhares cansados? Zona de conforto? Essa preferencia no julgamento já foi muito criticada antes em Trestles tanto no CT quanto no QS, e muitos surfistas tiveram que adaptar sua linha para um surfe mais tradicional para tentar agradar os juízes em vez de buscar o limite. Vide Julian Wilson. Mas seria esse o correto e não o contrário? Já vimos, num passado recente, o quanto juízes com mentalidades ultrapassadas tentaram barrar a evolução do esporte com atitudes bem parecidas com estas que estamos vendo hoje. Não seria a hora de injetar um sangue novo no julgamento tal qual acontece com os surfistas? Não seria a hora de eliminar a figura do head judge e deixar que os juízes definam o padrão das notas e os juizes mais irregulares darem lugar aos melhores juizes do QS? Não seria a hora de aproveitar alguns ex-competidores da elite usarem todo seu conhecimento para fazer um julgamento mais atual e mais justo?

 

Um dos pontos que questionam a credibilidade da World Surf League é que a WSL não uma entidade esportiva idônea e global nos moldes do Comitê Olímpico Internacional (COI), mas uma empresa privada que tem os direitos dos circuitos mundiais de surf profissional e de ondas grandes e que funciona de uma maneira parecida com o UFC. Sob um olhar superficial essa diferença não parece muito grande, mas na prática isso significa que a WSL é uma empresa com atividades lucrativas que depende muito de seus principais jogadores para que o show tenha brilho e emoção. Sem suas estrelas mais brilhantes, o circuito mundial perde o interesse do público e da mídia, perde status e perde dinheiro. Olhando sob esse ponto de vista, não é difícil imaginar que alguns surfistas possam ser “protegidos” pela audiência que proporcionam, ou que situações possam ser manipuladas para que  a emoção, a torcida e o interesse da mídia vão até a última etapa. Não estou afirmando aqui que isso acontece nem estou julgando a integridade dos juízes, apenas estou dizendo que existe poder demais nas mãos da diretoria dessa empresa privada e muito poder nas mãos dos juízes e que estes podem fazer o que quiserem sem maiores consequências.

Outro ponto que a WSL precisa corrigir são os critérios de julgamento. Aquele quadro com os critérios de julgamento que aparece na tela é muito bonitinho, mas na prática ele não funciona 100%. Nem mesmo os competidores parecem ter certeza do que os juízes querem ver. Afirmo sem medo de errar que os atuais critérios deixam confusas até as pessoas que acompanham o circuito mundial a muitos anos. Aliás, já estamos no segundo ano da World Surf League e quando falamos em julgamento, o coração de uma competição, o que temos é essa “herança” da ASP. Os critérios precisam ser claramente definidos para cada etapa e comunicados para atletas, para o público e para a imprensa. Esse julgamento atual é subjetivo demais e coloca poder demais nas mãos dos juízes. Exemplo? Os juízes sempre dão sua nota sabendo quanto cada surfista está precisando. Os juízes são orientados por um head judge que determina o padrão da onda surfada. Os juízes, se quiserem, podem valorizar mais um tipo ou estilo de surfe e podem até ter simpatia ou implicância com determinados surfistas. Novamente eu afirmo aqui, não estou dizendo que isso acontece, sei que os juízes são profissionais, acredito que sejam sujeitos íntegros e éticos, mas as armadilhas do ego estão em todo lugar e podem pregar peças até nas cabeças mais treinadas.

Mas enfim, como explicar o que vem acontecendo com o Gabriel Medina no circuito mundial? Talentoso e competitivo ao extremo, o garoto de Maresias vem sendo o principal representante dessa nova escola do surf mundial, é um dos personagens mais carismáticos da elite mundial e vem sendo constantemente prejudicado pelo fechado clã dos juízes da WSL. Não sou um fã do Medina, mas admiro demais o talento natural desse garoto e não foram poucas as vezes que fiquei surpreso com o que os juízes decidiram em suas baterias. Quem não lembra daquela polêmica bateria contra o Julian Wilson em Portugal? Ou daquela  final duvidosa no Pipe Masters em 2014? Teve aquela bateria também polêmica contra John John Florence esse ano no Tahiti e agora essa bateria muito contestada contra o local Tanner Gudauskas em Trestles.  Confesso que cheguei a pensar se ele está sendo punido porque é um garoto abusado ou porque vem dando um nó na ultrapassada cabeça dos juízes? Há quem diga que é porque os americanos precisam urgentemente de um novo ídolo.

O que também é difícil de entender na WSL é por que esse grupo de juízes é tão fechado e tão protegido?  Esse atual quadro de juízes não se renova nem quando o próprio esporte evolui e , pelo menos aparentemente, os juízes da WSL não sofrem consequências por seus erros, mesmo quando esses erros podem mudar a vida de muitas pessoas (competidores, famílias, tecnicos, preparadores, filmmakers, etc). Nesse aspecto o circuito passou dos domínios da ASP para a WSL mas a postura continua fechada e com dificuldade de falar sobre seus problemas. Também parece difícil de explicar a presença ou a importância da figura do head judge na sala dos juízes. Um juiz-chefe que define o padrão de nota para as ondas me parece desnecessário nesse cenário atual com telas e replays diversos.

Quanto ao episódio Medina x Tanner, a WSL não se pronunciou a respeito, como de costume.

O que sabemos é que muitos competidores manifestaram sua opinião nas redes sociais e isso obviamente deve ter irritado bastante a diretoria da WSL, que tem agora sua credibilidade em cheque. O que não sabemos é se a entidade irá se pronunciar, se virão com o velho chavão de “os brasileiros futebolizam tudo” ou se irão multar os surfistas numa desesperada tentativa de tampar o sol com a peneira.

2016 WSL Rulebook afirma que os surfistas “não devem se envolver em qualquer conduta que possa causar danos à imagem do esporte do surf.”, uma frase um tanto subjetiva. A WSL passa a descrever isso “como qualquer ato, independentemente de tempo ou lugar, que lança o surf ou WSL em uma luz negativa. Isso vale inclusive para posts e comentários nas mídias sociais dos atletas” e as multas variam de $ 1.000 a $ 50.000.

 

Sem mais intenção de de prolongar, vou deixar aqui as palavras de alguns dos diretamente envolvidos:

“Hora de ir pra casa. Muito triste, eu dedico ou dediquei minha vida pra isso…to cansado, cansei!”. – Gabriel Medina

“Quando há noites sem dormir, incontáveis horas de preparação e duras lições aprendidas com decepções do passado, é difícil não se sentir frustrado quando não se é recompensado em momentos-chaves como este. Talvez seja hora de descobrir o que os juízes veem e entendem como bom surfe, em comparação com o que os melhores surfistas do mundo veem e entendem como bom surfe, se é que isso poderia ser diferente?”  “Os juízes precisam assumir a responsabilidade dessas notas dos últimos dois dias. É hora de colocá-los no microscópio, assim como eles fazem com a gente.” – Julian Wilson

“Facilmente vai ser a maior nota da bateria!” – Ross Williams

“WHAT??” - Barton Lynch

“Quando ele pegou aquela última onda eu sinceramente achei que ele tinha conseguido a nota. Na primeira vez que vi achei que seria uns nove, nove alto. Quando assisti novamente, pensei: foi um 9.6. Eles viram diferente. Sei lá… Não dá para explicar” –  Mick Fanning.

Hahahahh muito engraçado agora vejo todos postando merda sobre mau julgamento em todas as mídias sociais…. Tenho dito isso nos últimos 6 anos e fui multado um milhão de vezes para responder explicações. Agora todo mundo está finalmente acordando. O julgamento no momento é muito amador para o quão grande o esporte se tornou. Temos contratos, dívidas, patrocinadores, bonus. Temos dedicado tudo para estar neste nível. Nós todos temos contribuído para o progresso do nosso esporte. Vamos melhorar para que a próxima geração não tenha que lidar com isso. Não me interpretem mal, deve ser difícil ser um juiz, é um trabalho difícil, mas se não é bom o suficiente para julgar, em seguida, não deve haver muito dinheiro envolvido. Simples assim !” – Jeremy Flores

“Sei que é ruim ficar reclamando, mas de todos os eventos que o Gabriel foi prejudicado, esse aqui foi o pior. O Gabriel fez a melhor onda do dia, a melhor do campeonato, e os juízes, infelizmente, conseguiram dar uma nota baixa e o Gabriel não conseguiu virar. Eu fico triste com isso. Claramente estão brecando o Gabriel. Imagine se o atletismo fosse brecar o Usain Bolt ou se a natação fosse brecar o Michael Phelps. Não dá. O menino nasceu para o esporte, ele vai lá e ganha e, infelizmente, cinco pessoas estão determinando o que é o certo e o que é o errado. Eles estão há mais de 20 anos, parece uma ditadura isso aqui” – Charles Rodrigues, padrasto e treinador de Gabriel Medina no Globo.com

“Demorei um pouco para colocar essa foto porque eu sei que as pessoas querem falar sobre isso: a bateria de Medina. Nenhum desrespeito com Tanner, mas sinceramente eu acho que ele conseguiu a nota que precisava no fim. Sei que a tarefa dos juízes não é fácil, mas acredito que a onda de Gabriel foi excelente. Essa é a minha opinião” – Michel Bourez

“É duro de aceitar quando eles tomam decisões que definem a vida das pessoas e não se importam em tomar as decisões corretas e não são de todos responsabilizados” – Matt Wilkinson

Here’s what I think about the heat between @gabrielmedina and @tannergud… Tanner’s first wave (8.5) was the best surfed wave of the heat with the most variety and commitment in maneuvers. Gabriel got the better score in the first exchange (8.83) which I thought was incorrect both live and watching replays later. That set a strange tone for the heat. The wave Gab got an 8.3 on should have been easily enough to put him in the lead AT THAT TIME. Tanner had an 8.67 in the middle of the heat that I think was very over scored by more than a point. So when Tanner rode his final wave he should have been in second place needing a mid 8 point ride. And he surfed that wave very well. I feel the judging got lost from the first exchange. By the time Gabby got his good wave (8.3) and didn’t receive the score, everyone was confused, myself included. No matter what you think it was a close heat that could have gone either way. I also think most people take easy opportunities to make big deals about things that aren’t super important in the scope of their lives. The extent to which people have taken this heat is seriously silly. It was a close heat that could have gone either way. Actually, three of us who go to every event scored it later at home and had Tanner with a slight lead, all things considered. My solution? The judges shouldn’t be able to hear the current situation and score accordingly but even with that they are trying to decide who surfed the better heat. We’ve all had close ones go our way or against us.
So there you go. Let the controversy (and blocking) continue!” – Kelly Slater

 

A propósito,  passamos de uma entidade excessivamente australiana para uma entidade excessivamente americana?

 

 

 

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