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Para onde caminha o surf?

Um título que trouxe muitas alegrias e que promete muitas mudanças - Foto: WSL

2015 promete ser um ano de muitas mudanças no surf brasileiro e mundial. Já começamos o ano com o inédito e poderoso título mundial de Gabriel Medina, que provavelmente irá aquecer muito o pseudo-falido mercado nacional. Muitas mudanças também devem ocorrer a nível mundial com a estréia da World Surf League. Mas o que exatamente significa isso tudo? Será que as mudanças realmente virão para modificar a realidade do nosso esporte e das pessoas que trabalham com ele ou continuarão beneficiando só um pequeno grupo de “cartolas” e empresários?

Primeiro vamos falar do surf aqui no Brasil.

O lucrativo mercado do surf – Depois de passar por um período relativamente bem longo com o status de esporte “falido” aqui no Brasil (com bons atletas sem patrocínio, com lojas e marcas se esquivando de qualquer tipo de patrocínio e com a extinção do circuito brasileiro profissional), após o título mundial conquistado pelo brasileiro Gabriel Medina centenas de matérias pipocaram em toda a mídia nacional, especializada ou não, colocando o surf em um nível de exposição nunca antes alcançado por estas terras. Hoje temos a sensação que a popularização do surf neste exato momento está se comparando ao fenômeno do tênis na época do Guga.  Mas é aí que temos um ponto curioso. Só no Brasil, segundo recente matéria exibida na Globo, o mercado surf movimenta cerca de R$ 4 bilhões de dólares por ano. Uau, isso é bom! pensam os entusiastas. Mas isso nos faz pensar também se existe realmente um comprometimento de quem lucra em cima do esporte. Por que um mercado tão estável e tão lucrativo foi tão mesquinho ao ponto de negar patrocínio a atletas, eventos e veículos da mídia?

Esse site mesmo que você está lendo, sobrevive somente graças ao amor deste que vos escreve, que banca do próprio bolso as matérias, viagens e coberturas de eventos. As poderosas e ricas marcas do surf, quando se dão ao trabalho de responder nossas propostas, oferecem um kit de camisetas ou algum produto em troca da audiência segmentada e especializada deste canal. Claro que nunca topamos esse tipo de parceria, pois sabemos exatamente o quanto custa a energia, a dedicação, o tempo e o trabalho de escrever textos, notas e matérias (sem nunca copiar e colar releases prontos, como fazem alguns sites que se dizem os maiores) e principalmente sabemos o custo de fazer fotos e vídeos exclusivos nos eventos. Aqui no SurfOnline só não conseguimos fazer mais coberturas in loko, porque não temos de onde tirar dinheiro para passagens, hospedagens e alimentação, muito menos para contratar mais profissionais. Enquanto o mercado se negar a fazer esse tipo de investimento, muito do nosso trabalho será feito online. Já poderíamos (e deveríamos) ter fechado esse site e o colocado a venda, pois esse domínio é um “ponto comercial” bem interessante e possui uma freqüência mensal de clientes bem viva e considerável, mas estamos preferindo seguir sustentados apenas pelo louco e incompreensível amor pelo esporte. E não, esse não é um desabafo só meu não, esse é a realidade de muitos profissionais que trabalham (ou tentam sobreviver) com o esporte. E não são poucos os jornalistas, fotógrafos, filmmakers e até mesmo atletas que estão marginalizados em seu próprio esporte. Assim como não são poucos os empresários que se dizem incentivadores do surf, mas que viram as costas para estes profissionais.

Que o surf lucra bilhões por ano, isso não é novidade para ninguém, as pesquisas da Surf & Beach Show já mostravam isso há mais de 10 anos atrás. A parte mais difícil dessa realidade é a de aceitar que o surf se tornou mais lucrativo porque as grandes empresas (nacionais e multinacionais) porque muitas delas se tornaram verdadeiras sugadoras do esporte e estão deixando de devolver ao surf um pouco do dinheiro que o próprio esporte lhes dá. Desconsideração para com as pessoas que fazem, que trabalham e que divulgam esse esporte? Mesquinharia? Falta de comprometimento com o surf e sua cultura? Foco somente nas vendas e nos lucros? 

Se o mercado em 2015 vai mudar? É lógico que vai. Que pai não quer ver seu filhote com uma prancha cheia de patrocínios embaixo do braço e com um salário milionário? Um surfista talentoso e inteligente hoje pode ganhar muito mais dinheiro, status e fama do que um médico, advogado ou engenheiro. E muito garoto hoje começará a surfar com total apoio dos pais, uma situação completamente diferente da realidade de poucos anos atrás. Alguns atletas, poucos é verdade, já ganham tão bem quanto jogadores de futebol e esse título do Medina fatalmente incentivará uma legião de novos surfistas e gerará um lucro muito maior para marcas e fabricantes. Volto a perguntar: veremos esse dinheiro todo respingar nas pessoas que trabalham com o esporte? Ou essa grana ficará toda nas mãos dos mesmos empresários e cartolas de sempre? Não vejo muita perspectiva na mudança de mentalidade se as pessoas que detém a maior parte desse dinheiro continuarem as mesmas.

Mas enfim, ainda não temos muita certeza do real impacto que esse título do Gabriel Medina trará ao surf no Brasil. Nossa única certeza é que para o Gabriel Medina as mudanças serão grandes e nítidas, afinal o garoto já é um dos atletas mais patrocinados e valorizados deste país, atrás apenas do jogador de futebol Neymar em número de patrocínios. (Mesmo o Gabriel Medina sendo muito mais talentoso, vitorioso e respeitado internacionalmente do que o Neymar.  Aliás, dizer que o Medina é o Neymar do surf é um erro. Se o Neymar se dedicar seriamente e conquistar algum titulo mundial importante, talvez, e somente talvez, possamos dizer que ele é o Medina do futebol. Quanto ao “resto” do esporte, até o momento ainda temos o surfe feminino no Brasil falido e esquecido, continuamos sem um (básico) circuito brasileiro de surf profissional e continuamos com empresários e dirigentes embolsando o dinheiro que deveria fomentar o esporte. Esperamos que essa realidade mude, como esperamos que a maioria desses “dirigentes” também mude, pois o mercado está cansado de ter que pagar muito dinheiro para pessoas que roubam e desviam muito dinheiro.

 

World Surf League – No cenário mundial algumas mudanças também prometem agitar a cena do esporte. O surf competição, a nível mundial, em 2015 deixa de ser gerenciado pela antiga Association of Surfing Professionals (ASP) e passa a ser gerenciado pela World Surf League (WSL). Na teoria, o surf deixa de ser uma associação (que na verdade já era uma empresa privada) de surfistas profissionais e passa a funcionar com um formato de liga mundial. Mas estas mudanças serão mesmo grandes ou serão uma mera “maquiagem” para atrair novos investidores?

“Começando pelo começo”, o nome mudou, mas o logotipo da entidade continua o mesmo (na verdade foi apenas remendado). Os donos da entidade mudaram, mas a maioria dos dirigentes continua a mesma, assim como o quadro dos juízes, o ponto mais frágil dessa contestada entidade, que parece que também continuará o mesmo (e talvez a gente continue assistindo o Julian Wilson ganhar baterias e campeonatos de presente). Posso estar errado, mas parece que estão somente dourando a pílula para que empresas de fora do esporte passem a investir no esporte surf, já que (mais uma vez esse assunto) as empresas do setor continuam se esquivando desses investimentos alegando que estão vivendo um momento de grande crise.

- wsl

As primeira grande mudança dessa nova gestão da ZoSea, a empresa que está por trás da WSL, foi trazer novos investidores para o circuito mundial, antes exclusivamente patrocinado pelas poucas e grandes marcas do segmento. Primeiro veio o investidor bilionário, Dirk Ziff, e depois grandes marcas como a Samsung e a GoPro. (Depois ficamos sabendo que não era bem a Samsung, mas o Samsung Galaxy, o produto).

Também mudou bastante e para melhor o esquema dos webcasts, as transmissões ao vivo, que antes eram realizadas no site de cada marca patrocinadora o que  dificultava muito a aferição da real audiência que o circuito proporcionava. Hoje a parceria da entidade com o youtube e com o facebook ajudam não só a popularizar o esporte e a ampliar a visualização dos eventos, como a medir melhor esses índices de audiência. Aliás, esse ponto específico dos números de audiência ainda é uma incógnita, pois enquanto locutores pagos falam em milhões de telespectadores, os números reais não são tão grandes assim. E mesmo quando os números parecem grandes, não são constantes durante todo o dia de competição. Muito pouca gente (só doentes, como eu) passa 8 horas por dia de competição conectados e assistindo a todas as baterias. Não vejo essa imersão nos eventos nem por parte de alguns jornalistas da dita grande mídia especializada. Engajamento a parte, a verdade é que os únicos grandes picos de audiência dos eventos da ASP ainda são as baterias do Kelly Slater (com larga vantagem) com destaque para algumas baterias do Gabriel Medina. E mesmo assim, o número de visualizações de um dia de evento da ASP as vezes não chega no número de visualizações de um vídeo do Jamie O´Brien, por exemplo.

Photo: ASP/Cestari

O webcast certamente mudou para melhor, mas também ficou bem mais caro – Photo: ASP/Cestari

Nem tudo são flores nessa nova fase do surf mundial. O atual circuito é muito mais caro que o antigo circuito da ASP. Estima-se que só circuito mundial masculino, com sua estrutura monstruosa e seu webcast caro, tenha um custo de 50 milhões de dólares por ano. A entidade ainda comprou os direitos do circuito mundial feminino, os circuitos mundiais masculino e feminino de qualificação e o circuito mundial de ondas grandes, o que elevaria esses valores a um custo anual de 100 milhões de dólares por ano. Como os patrocinadores ainda são poucos e tímidos e os  custos de produção são muito altos, a entidade continua operando no vermelho. Até quando o bilionário Dirk Ziff continuará gastando seu dinheiro com o surf sem ter um retorno proporcional? Isso ninguém sabe. Mas certamente existe um ponto de ruptura e isso certamente deve preocupar os dirigentes.

Claro que a ZoSea é uma equipe de profissionais muito mais capacitados do que os antigos gestores da ASP. O CEO da entidade, Paul Speaker foi diretor de marketing da NFL (National Football League) e foi presidente da Time Inc. Studios. Terry Hardy foi empresário de Kelly Slater, foi um dos arquitetos do Rebel Tour e tem grande experiência com esportes de ação e entretenimento. Somados a um investidor bilionário, essa equipe da ZoSea realmente pode mudar os rumos do surf mundial. Não lhes falta cacife para vender o esporte para grandes patrocinadores nem know how para tornar nosso esporte mais popular e o circuito mundial muito mais rico. Se eles conseguirão ou não, isso depende de uma série de variáveis, algumas controláveis, outras não.

A verdade é que a ASP ainda precisa de patrocinadores, senão corre o risco de ver o seu “dream tour” literalmente morrer na praia. E os números mostram um considerável desequilíbrio entre os custos de funcionamento do circuito e a quantidade de audiência que esse circuito tem conquistado. Para piorar a questão, o julgamento nas etapas do circuito mundial mexeu tanto com a credibilidade da entidade que até mesmo o público mais fiel da ASP, que são os surfistas, tem perdido o interesse em acompanhar os eventos full time. O mesmo se diz das etapas realizadas em ondas pequenas ou ruins. Os comentários tanto no facebook quanto no twitter mostram isso claramente. Como conquistar tantos novos seguidores se até mesmo os mais fissurados surfistas ainda acham esses eventos longos, cansativos e com julgamentos tendenciosos? Como atrair novos fãs se o formato dos eventos permanece desgastado e sem inovações? Essas são algumas das perguntas que a diretoria da ZoSea deve responder.

Que o surf tende a ficar mais popular no Brasil nos próximos anos, isso nos parece claro, até óbvio. E que o esporte tem tudo para ficar mais rico e atrativo no cenário mundial, isso também nos parece bastante possível com essa nova gestão da ZoSea.

E você, o que pensa sobre isso? Participe da discussão.

Enquanto isso a ASP segue tentando novos patrocinadores/investidores:  http://www.worldsurfleague.com/pages/sponsorship

Fontes:

http://beachgrit.com/sponsor-wsl-goes-chasing-cash/

http://www.swellnet.com/news/surfpolitik/2014/05/08/asp-its-whos-watching

 

 

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